POLITICA, COMUNICAÇÃO & ELEIÇÕES

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A primeira biografia de Costa Gomes

Do jornal "Publico": "É a primeira biografia de longo fôlego de Francisco da Costa Gomes, que foi Presidente da República entre 1974 e 1976. Marechal Costa Gomes, no Centro da Tempestade é uma obra do investigador Luís Nuno Rodrigues, que hoje é lançado, onde se analisa o percurso do militar e do político que foi Presidente da República durante um dos períodos mais conturbados da história recente, o chamado Processo Revolucionário em Curso (PREC). Há muitos episódios nesta biografia de quase 400 páginas. Escolhemos quatro, alguns dos quais com novas e polémicas perspectivas dadas pela consulta da documentação norte-americana desclassificada recentemente. Um é descrito pelos vários telegramas trocados entre a embaixada dos Estados Unidos em Lisboa e o Departamento de Estado, como a assistência dos americanos na evacuação dos portugueses em Angola em troca do eventual afastamento do primeiro-ministro Vasco Gonçalves. A mesma correspondência também analisa a possível "chantagem" do PCP junto do Presidente, concluindo a embaixada que esta chantagem é improvável, mas que o único filho de Costa Gomes (que se suicidou mais tarde) era membro da juventude comunista e próximo da família Gonçalves.
Empurrado para Presidente da República
No Palácio de Belém ouve-se o estrondo do bater de uma porta e o som de passos firmes e decididos. Na sequência dos dramáticos acontecimentos dos últimos dias, o general António de Spínola apresentara ao Conselho de Estado a sua renúncia ao cargo de Presidente da República. Spínola fora o primeiro Presidente da República após o 25 de Abril, mas nos meses que se seguiram à "revolução dos cravos" as suas relações com os chamados "capitães de Abril" tinham-se deteriorado muito significativamente.Spínola tentara já, por diversas vezes, chamar a si o controlo político e militar da situação. Procurara dissolver a Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas (MFA), onde se agrupavam os oficiais responsáveis pela revolução; depois, tentara reforçar os poderes presidenciais e adiar as eleições para a Assembleia Constituinte, através do chamado "golpe Palma Carlos". Agora, no final de Setembro, os "spinolistas" tinham planeado uma grande manifestação, a ter lugar na cidade de Lisboa. Nesta manifestação, a chamada "maioria silenciosa" deveria demonstrar, de forma inequívoca, o apoio popular ao general. Serviria assim de pretexto para que Spínola conseguisse operar uma mudança significativa no equilíbrio do poder político, dissolvendo a Comissão Coordenadora do MFA, promovendo a demissão do primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, e legitimando o reforço dos poderes do Presidente da República.A reacção do MFA foi, contudo, decisiva. As unidades militares afectas ao Movimento foram prontamente mobilizadas e as acções programadas por Spínola e seus apoiantes eficazmente anuladas. O "25 de Abril" estava, de novo, "sobre rodas", como diria o então capitão Vasco Lourenço. Em torno da cidade de Lisboa ergueram-se barricadas populares, procurando evitar a entrada na capital dos eventuais apoiantes de Spínola. No dia 28 de Setembro, o gabinete da Presidência da República, reconhecendo uma primeira derrota, emitiu um comunicado no qual se afirmava que não seria "conveniente" a realização da manifestação. Dois dias depois, Spínola apresentou finalmente a sua demissão numa reunião da Junta de Salvação Nacional com a presença dos membros do Conselho de Estado.O homem que tinha presidido aos destinos do país por pouco mais de cinco meses abandonou, por conseguinte, a Sala Cor-de-Rosa do Palácio de Belém onde a reunião se realizava. Mas os restantes membros da Junta de Salvação Nacional e do Conselho de Estado mantiveram-se reunidos. O general Francisco da Costa Gomes assumiu a direcção da reunião. Era ele, desde o início, o "número dois" do novo regime, ocupando o cargo de chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas. Com ele, nos dias anteriores, já o MFA tinha discutido a eventual sucessão de Spínola e a necessidade de o homem em quem os capitães tinham depositado a sua confiança antes mesmo do 25 de Abril dar um passo em frente e assumir a Presidência da República".