Expresso: "Ao ritmo delas"

Também do semanário Expresso, transcrevo uma interessante reportagem da autoria da jornalista Cristina Peres, sobre a influência de algumas mulheres que começaram agora a ter maior protagonismo político nos seus países: "Ignacio Lago, professor de Ciência Política da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, a única do país a alguma vez ter tido uma mulher como reitora, disse ao «Expresso»: «É uma mudança brutal: Espanha passou em muito pouco tempo de par de outros países europeus refractários a reconhecer a importância social das mulheres para a liderança das reformas.» A imagem de uma mulher jovem, grávida de sete meses, a passar revista ao Exército foi manchete em todos os jornais espanhóis na semana passada e obrigou a reflectir sobre a velocidade que o chefe do Governo de Espanha imprimiu às reformas no seu país. Ao nomear Carme Chacón como ministra da Defesa do seu novo Executivo, José Luiz Rodríguez Zapatero arriscou ficar para a História como «O Reformador». O diário conservador «El Mundo» titulou a sua edição «Chacón entra para o Guiness»; e, lá dentro, o editorial não resistia à crítica: «O perfil da nova ministra choca indubitavelmente com os valores tradicionais e a cultura do Exército espanhol.» Mas a verdade é que, apesar dos desafios anteriormente lançados às instituições mais intocáveis do país, como a Igreja, Zapatero conseguiu surpreender ao formar um Governo paritariamente constituído por ministras. A imagem de Carme Chacón é, todavia, particularmente simbólica do momento que Espanha vive. Uma mulher jovem detém uma das mais altas representações do Estado a par de homens. Grávida do primeiro filho aos 37 anos, é a prova de que as carreiras profissionais das espanholas passaram a ter, senão prioridade, pelo menos tanta importância como as suas vidas pessoais. A gravidez de sete meses fá-la-á parar, dentro de dois meses, por um período de tempo que será suportado pela Segurança Social (uma regalia que não existia há 40 anos) e, mais importante, sublinha Lago, «a competência para os cargos deixa de depender do género da pessoa escolhida para o desempenhar». A mensagem do programa político de Zapatero é clara. A realidade política passa a espelhar a realidade social do país e a paridade passa de virtual a real: já não há só quotas para fazer cumprir a lei em lugares secundários e sem perspectiva de reeleição, mas mulheres colocadas nos mais altos cargos do Governo de Espanha. «A revista das tropas feita por uma mulher grávida é histórica e prova que Zapatero quer acabar com o preconceito de que as mulheres grávidas estão diminuídas nas suas capacidades para cumprir funções públicas», disse ao «Expresso» Elza Pais, presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade do Género. Relativamente a Portugal, a presidente reserva o seu juízo: «Veremos... Para o ano há eleições.» E conclui: «Temos de pôr fim ao tempo que nos permitia desperdiçar recursos. Está provado que as mulheres são um extraordinário recurso para a boa governação.» De «O Reformador», Zapatero bem poderá passar a «O Moderno». Os espanhóis agradecem e adaptam-se. Ao que parece, as reformas tendem a ser historicamente radicais. Há 40 ou 50 anos, «as mulheres não tinham qualquer expressão política nem social»; há 30 anos, «ser homossexual era ilegal e passível de perseguição legal» e, hoje, Espanha é «o primeiro país em que os casamentos homossexuais gozam de direitos iguais aos dos casamentos heterossexuais», disse ainda o professor Lago. Prova de que os espanhóis falam a uma só voz foi a reacção da presidente da Comunidade de Madrid, Esperanza Aguirre, à chacota a que as escolhas do chefe do Governo espanhol foram sujeitas pelo recém-eleito (pela terceira vez) chefe do Executivo italiano, Silvio Berlusconi. Ao comentário de que o Executivo espanhol era «demasiado cor-de-rosa» e, por isso, «difícil de controlar», Aguirre respondeu dizendo que as nomeações das ministras tinham sido «uma das melhores coisas» que Zapatero fizera. Esperanza Aguirre é uma das principais líderes do Partido Popular e está em vias de disputar a liderança ao seu actual presidente, Mariano Rajoy. A coincidência no tempo das eleições italianas prova que a «velocidade» dos países está por todas as formas ligada aos seus líderes. Silvio Berlusconi resolveu dar o ar da sua «modernidade» ao nomear para ministra da Família Mara Cafagna, uma ex-Miss Itália e ex-deputada pela Forza Italia antes responsável pelo movimento das mulheres naquele partido. E não poupou comentários ao seu estilo bem conhecido, justificando a fraca representação feminina no seu Executivo: «Não podemos fazer em Itália o mesmo que Zapatero, porque há uma prevalência de homens na política e não é fácil encontrar mulheres qualificadas.» A tendência não fica por aqui. Antes de Zapatero, em França, Nicolas Sarkozy já fora referido pela imprensa nacional como tendo constituído um Governo «muito diferente dos anteriores», com a nomeação de sete ministras entre os 15 ministérios existentes. Depois da crise das periferias, altura em que Sarkozy era ministro do Interior e teve de se confrontar com a resolução da revolta das comunidades de origem árabe moradoras nas periferias das cidades francesas, o Presidente Sarkozy marcou o Governo com um facto inédito em França: para a pasta da Justiça chamou Rachida Dati, uma mulher descendente de um casal constituído por um argelino e uma marroquina. Sejam quais forem as causas imediatas destas escolhas, a tendência parece imparável. As populações, mais justamente representadas, agradecem".Mulheres nos governos
ESPANHA - Tem 9 mulheres, num Governo de 17 ministérios, incluindo a pasta da Defesa, que foi entregue a Carme Chacón, grávida de sete meses
FINLÂNDIA - 12 das 20 pastas são sobraçadas por mulheres
FRANÇA - O Presidente Nicolas Sarkozy cumpriu a promessa eleitoral e nomeou 7 mulheres, num Executivo com 15 ministérios
PORTUGAL - O Governo português tem apenas 2 mulheres ministras, nas pastas da Educação e da Saúde


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