POLITICA, COMUNICAÇÃO & ELEIÇÕES

sábado, 26 de Abril de 2008

As palavras de Cavaco

Da autoria do jornalista do Publico, Miguel Gaspar, transcrevemos com a devida vénia um texto que nos parece extremamente importante: "O primeiro-ministro que não se enganava deu lugar a um Presidente que liga pouco às dúvidas. Mas aquilo de que Cavaco Silva nos quer realmente falar é do futuroEnquanto primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva definiu-se, um dia, como um homem que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas. O soundbite fez o seu caminho nos anos dos governos de maioria absoluta e ficou como imagem de marca do cavaquismo. De forma involuntária, eventualmente. Mas nesse soundbite o primeiro-ministro descrevia-se a si próprio de uma forma que colava que nem uma luva com a imagem de governante tecnocrata e com tiques autoritários.O cavaquismo não era suposto ter transitado do Cavaco primeiro-ministro para o Cavaco Presidente da República. Mas no percurso de dez anos entre São Bento e Belém a dúvida não parece tê-lo assaltado. Quando se olha a lista das palavras mais pronunciadas pelo Presidente desde a tomada de posse, em 2006, até ao princípio deste ano (ficou de fora a visita à Madeira), a palavra "dúvida" foi pronunciada, mas duas vezes. Tantas, aliás, quanto o advérbio de modo "provavelmente". Parece claro que é o mesmo homem que raramente duvida e nunca se engana que transitou para Belém. Mesmo se o cavaquismo ficou pelo caminho. Se a utilizar hoje, na Assembleia da República, no seu terceiro discurso do 25 de Abril, será um acontecimento. Mais extraordinário, talvez, do que se falasse de cravos. Mas não há lugar para flores nos discursos presidenciais, que por duas vezes mencionam a Sophia do "dia inteiro e limpo". O mesmo número de vezes que são mencionados Sá Carneiro e Jacques Delors, figuras incontornáveis do seu percurso. Mas flores, não.A análise palavra a palavra de qualquer discurso é, em princípio, um jogo potencialmente traiçoeiro. O método utilizado pelo P2 para analisar as palavras do Presidente é semelhante ao que usámos para analisar o que disse José Sócrates (edição 20/02/08). Isola e quantifica as palavras, mas retira-as do contexto. É ao mesmo tempo um jogo e um método. As palavras mais usadas por Cavaco, enquanto Presidente, são um retrato eventualmente involuntário do que pensa o inquilino de Belém. De qualquer modo, os termos mais vezes registados por este método informático de coar palavras identificam um tema, um sujeito central, nos seus discursos: Portugal. Não a república, não a nação, não a democracia: Portugal. E com maioria absoluta. É a palavra mais vezes usada (635), seguida por "portuguesa" (601 vezes). E para que não restem dúvidas, a terceira mais comum é "país" (549). Somando as três, dá um "cacho" de 1785 referências. É um número que não engana nem permite alimentar dúvidas - Portugal é o núcleo duro, o valor mais importante do discurso do Presidente.
Cavaco por Cavaco

Poderíamos, é claro, perguntar se não é óbvio que o Presidente de Portugal use mais vezes a palavra "Portugal" do que qualquer outra e se, no fundo, esta conclusão não seria apenas uma valorização do ruído de fundo das palavras de Cavaco. Felizmente, o próprio Cavaco dá-nos um guia para interpretar os seus discursos. Sendo que esse guia também pode dar guarida a dúvidas ou mesmo a enganos - quando falam de si mesmos, os autores mascaram-se sempre.Assim, na edição de 5 de Abril do semanário Sol, Cavaco Silva publicava a primeira parte do prefácio ao livro Roteiros 2, no qual serão reunidos os discursos do segundo ano de mandato (disponíveis no site da presidência). O texto chama-se A palavra pública e nele Cavaco deixa quatro ideias chave. Três são formais - ponderação, reserva e prudência - e uma é de substância: o combate à resignação. Na primeira - "o Presidente da República deve ser ponderado no uso da palavra pública de modo a ser escutado" - está a noção de que o Presidente precisa de falar pouco para ser ouvido. Uma só referência, sob a forma de uma sugestão, chega para passar a mensagem. E assim, no discurso de Ano Novo deste ano, ao referir-se à "inquietação de muitos portugueses", os quais "não estão seguros de que os utentes, principalmente os de recursos mais baixos, ocupem, como deve ser, uma posição central nas reformas que são inevitáveis para assegurar a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde", confortava o Governo quanto à remodelação na pasta da Saúde que se seguiria semanas depois. Já a ministra da Educação, que também viria a estar sob forte contestação, era alvo de uma referência elogiosa; no ano anterior, 2007, Cavaco pedira resultados na educação. Um ano mais tarde, aprovava o esforço de Maria de Lurdes Rodrigues. E quando fala em "dever de reserva", está a referir-se às relações com o Executivo. O PR mantém um dever de reserva, mas está informado. E, quando fala, não há razão para o Executivo ficar surpreendido: "O Governo conhece, em geral, as suas [do PR] opiniões sobre os principais assuntos da governação, não havendo razão para ficar surpreendido quando sobre eles o Presidente se pronuncia." Quanto à prudência, é relativa à necessidade de resistir à pressão mediática, no contexto da qual "encontrar a palavra certa, na ocasião apropriada, nem sempre é um exercício fácil". Perante os media, o homem de poucas dúvidas reconhece que é difícil evitar o erro. Mas continuamos sem saber quais são afinal as certezas deste homem".