POLITICA, COMUNICAÇÃO & ELEIÇÕES

sexta-feira, 21 de março de 2008

Peritos dizem que revelar factos mais pessoais traz vantagens

O primeiro-ministro, José Sócrates, e o líder do PSD, Luís Filipe Menezes, revelaram às câmaras da SIC partes das suas vidas pessoais. Em reportagens no Jornal da Noite, falaram de hábitos quotidianos, do passado, da família.A estratégia de mostrar o lado pessoal dos políticos não é inédita, "está na moda" e "é bem-vinda para a maioria dos eleitores", nota Edson Athaíde, publicitário e responsável pelo marketing político das campanhas de António Guterres, em 1995, e de Manuel Maria Carrilho, nas autárquicas de 2005.Para Athaíde, este é o tipo de acção que tende a beneficiar "quem tem índices de notoriedade mais baixos" e que pode assim "dar-se a conhecer" - neste caso, Luís Filipe Menezes.O director-geral da agência de comunicação Lift, Salvador da Cunha, também argumenta que esta foi uma boa oportunidade para o líder do PSD, que conseguiu um espaço "para se comparar" a Sócrates: "A SIC permitiu a Menezes pôr-se ao lado do primeiro-ministro, o que nunca tinha acontecido até aqui. Ainda que numa ocasião específica, permitiu-lhe subir a fasquia."Salvador da Cunha considera ainda que mostrar o lado pessoal dos políticos é "sempre positivo". Mas refere que isso quase não aconteceu na reportagem da SIC sobre Sócrates e critica a forma como esta foi conduzida: "Foi óbvio que a liberdade da jornalista estava espartilhada. Não houve nada que transparecesse do primeiro-ministro que o tornasse mais humano."Na mesma linha, o crítico de televisão Eduardo Cintra Torres diz ter notado um tom "falso" na reportagem e defende que este tipo de trabalhos é, "à partida, favorável" ao visado.Sobre tudo e nadaPrometendo mostrar "o outro lado" de Sócrates, a SIC pouco mais conseguiu do que chegar ao hall de entrada da casa do primeiro-ministro. Família só nas fotografias; objectos pessoais só a caneta Parker e o anão de peluche Zangado. Luís Filipe Menezes, por seu lado, quase escancarou as portas da sua vida."Os media portugueses ainda preservam muito a intimidade dos políticos", afirma o director de informação da SIC, Alcides Vieira. "A reportagem até estava muito aquém da fronteira do que é privado", reconhece."São entrevistas descontraídas, informais, mais civis e menos políticas. São sobre tudo e sobre nada", defende Alcides Vieira, acrescentando serem "conversas soltas e desprendidas, que revelam o homem e não o político", como contraponto às entrevistas de estúdio, que são preparadas ao milímetro, "mais teatralizadas". Preferindo deixar a interpretação aos espectadores, o director de informação reconhece que pode transparecer "alguma teatralização" - afinal, as eleições são dentro de ano e meio e tudo o que disseram "pode ter uma interpretação política". "É evidente que qualquer político aproveita o espaço que tem nos media para fazer passar uma mensagem, mas os espectadores são bem capazes de fazer o seu juízo de valor."O director de informação justifica a escolha de Sócrates e Menezes com a grande contestação e a passagem dos três anos de governo, para o primeiro, e a crise no PSD, para o segundo.
Fonte: João Pedro Pereira e Maria Lopes, jornal "Publico"