POLITICA, COMUNICAÇÃO & ELEIÇÕES

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Reportagem: "O sonho não era dele"

"Tudo começou num autocarro. Não se sabe o que passou pela cabeça da senhora Rosa Parks. Era uma costureira negra, de 42 anos, que vivia em Mongomery, Alabama. Não se sabe o que lhe passou pela cabeça naquela quinta-feira, dia 1 de Dezembro de 1955, que resolveu sentar-se na primeira fila do autocarro. O condutor, claro está, aproximou-se e disse-lhe para ir para uma das filas do fundo, porque aquele lugar estava reservado a brancos. Mas a senhora Parks fez orelhas moucas. Não se mexeu. Foi presa. O julgamento foi marcado para a segunda-feira seguinte. A senhora Parks não fazia ideia de onde se estava a meter.Por incrível coincidência, ou talvez mera casualidade, o reverendo Martin Luther King Jr tinha sido nomeado como pastor da Igreja Baptista da rua Dexter, em Montgomery. Ele, que tinha acabado o curso do seminário em Crozer, na Pensilvânia, fora um dia a Montgomery fazer um sermão, a pedido do pai, que também era pastor. Gostaram tanto que o convidaram para ficar lá. Foi o seu primeiro emprego.Martin era um jovem bastante enfadonho. Só pensava em estudar e levava tudo demasiado a sério. Até no amor era circunspecto: foi uma amiga que lhe sugeriu uma determinada rapariga. Deu-lhe o número de telefone dela e Martin ligou a convidá-la para almoçar. Após uma hora de conversa, o jovem reverendo disse: "Coretta, qualquer dia temos de nos casar". Meses depois casaram. Seria a única mulher da vida de Martin Luther King. Na sua autobiografia foram publicadas as suas primeiras cartas de amor. São patéticas, de tão prosaicas. Uma, de 18 de Julho de 1952, começa assim: "Querida, tenho muitas saudades tuas. Tantas, que não imaginas". Mas logo a seguir continua: "Desculpa, minha querida, não era minha intenção deixar-me arrastar por estes devaneios poéticos e românticos". Prossegue com um relato dos livros que andava a ler e das bases da teoria económica que estava a edificar. Despede-se, com paixão: "É esta, no meu entender, a forma mais sensata e ética de operar a transformação social. Eternamente teu, Martin"."Quem é o porta-voz?" (texto do jornalista Paulo Moura, do Publico, aqui)