POLITICA, COMUNICAÇÃO & ELEIÇÕES

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Reportagem: "Como as FARC se perderam na selva"

"No centro de Bogotá, numa rua cheia de montras de roupa, casas de câmbio e quiosques que vendem pãezinhos redondos de queijo, uma placa diz que foi ali que no dia 9 de Abril de 1948 foi morto Jorge Eliécer Gaitán. Faz 50 anos na terça-feira. Já ninguém liga, as pessoas passam sem dar por nada. E no entanto foi naquele lugar que a Colômbia se habituou à morte - sob o olhar agonizado no cerro que domina a cidade do Senhor Caído. Um jovem seguidor, Pedro Antonio Marín, tinha ainda e só 18 anos. O jornalista e escritor uruguaio Jorge Galeano fez sobre essa hora o retrato da hecatombe que viria a seguir, o Bogotazo, a guerra. O período ficará conhecido como La Violencia. Durou dez anos. Há quem defenda que nunca acabou. "Lo mataron! Lo mataron! Ha sido en la calle, de três balazos!", gritaram na rua. O relógio de pulso do líder do Partido Liberal, que era ao mesmo tempo a sua ovelha negra, parou perto da uma e meia da tarde. Um jovem e corpulento cubano chamado Fidel Castro, que ia ao seu encontro, nunca o chegou a conhecer. Se o não tivessem morto, Gaitán sucederia com facilidade ao Presidente Mariano Ospina Pérez, que o vencera em 1946. E nem os conservadores nem os Estados Unidos estavam interessados nisso. O homem andava a falar de nacionalizações, de reforma agrária e outras coisas esquisitas. Um diplomata disse que o tom "quente" com que discursava "derretia a neve dos Andes". Os liberais saíram aos milhares para as ruas de Bogotá, mandaram-se com tanques contra o palácio presidencial. Os participantes de uma conferência da Organização dos Estados Americanos, um deles o general George Marshall, assistem a tudo pasmados. É a confusão. "Alguém deambula em busca de um sapato. Uma mulher uiva com um menino morto nos braços. A cidade fumega", escreve Galeano. Nos anos seguintes morrerão por todo o país, entre liberais, comunistas e conservadores, 200 mil pessoas. Pedro Antonio Marín, não. Quando tudo ficou mais calmo, liberais e conservadores juntaram-se na Frente Nacional para continuarem a partilhar o poder, ora uns ora outros. Mas muitos seguidores de Eliécer Gaitán e outros progressistas preferiram continuar barricados e nasceram as "repúblicas" de Marquetalia, El Pato, Rio Chiquito ou Sumapaz, rincões com administração própria que o centro iria matar, um a um" (reportagem do jornalista do Publico, Fernando Sousa, aqui)