POLITICA, COMUNICAÇÃO & ELEIÇÕES

sábado, 26 de Abril de 2008

Não há campanha eleitoral no condado amish

Um interessante texto da jornalista do Publico, Rita Siza, emitido de Filadélfia, Pensilvânia, quando acompanhava as eleições americanas: "Amber tem umas longas unhas pintadas de cor-de-rosa choque, um piercing na sobrancelha direita e umas calças de ganga justas por baixo de um avental negro. Pela longa mesa de madeira, vai distribuindo travessas: pão com manteiga de maçã, frango frito, puré de batatas com molho, lombo fatiado, cenoura cozida, salsicha assada, pickles de sabor adocicado. Depois diz aos convivas que acidentalmente partilham a refeição: "Sirvam-se e rodem os pratos. É assim que fazem os amish."Os Amish são a razão de ser do restaurante (e complexo comercial) da Plain and Fancy Farm, uma centena de metros antes dos limites oficiais da povoação de Intercourse (originalmente chamada Cross Keys), em pleno condado de Lancaster, onde aquele grupo religioso anabaptista forma uma comunidade de cerca de 40 mil pessoas. Quem viaja até lá cruza-se na estrada com as pequenas carruagens negras onde viajam as famílias amish, e apercebe-se do seu quotidiano rural ao ver as suas quintas e terras de cultivo, alinhadas pelas vedações brancas.Mas só muito dificilmente se consegue conviver com os amish, que levam uma vida separada da do resto dos "ingleses" - que é a forma como se referem à restante população. "Alguns trabalham aqui. A família que explora os passeios de carroça é amish, por exemplo, e há muitos carpinteiros e outros artesãos que trabalham nos ateliers para turistas", explica Amber. "Quer dizer, eles estão aqui por todo o lado", corrige, fazendo um amplo gesto circular com o braço. "Não é difícil vê-los. Mas falar com eles? Boa sorte", deseja a jovem.Aos fins-de-semana, quando as estradas se enchem de minivans familiares que "vêm para ver os amish", o condado parece um parque temático em miniatura, com a população que segue a tradição suíça menonista importada para os Estados Unidos no final do século XVII a fazer o papel de figurante. Pela berma da estrada sucedem-se os estabelecimentos comerciais com a palavra "Amish" pintada na montra: restaurantes, antiquários, lojas de colchas, cestos e velas, motéis e bed and breakfasts - todos eles repletos de "ingleses": os locais que lá trabalham e os turistas que os visitam. "Estamos aqui por causa das eleições", explicamos depois de trocar umas frases de circunstância com um pequeno grupo de homens e mulheres vestidos com os trajes tradicionais dos amish. "Eleições?", repetem, não com surpresa, mas talvez com indiferença. Não, não, abanam a cabeça. Não têm nada para dizer sobre isso, dizem. Mas porquê, não lhes interessa?, provoca um dos repórteres. Não, continuam a abanar a cabeça, sem ser claro se o gesto é a resposta à pergunta ou apenas a confirmação de que não querem falar sobre o assunto.Os amish de Lancaster, que seguem a "Velha Ordem", não usam electricidade e por isso não assistem aos debates políticos na televisão; não têm telefones e assim são imunes às chamadas constantes das campanhas eleitorais e não frequentam os lugares dos "ingleses", pejados de cartazes com os nomes dos candidatos presidenciais. Isso não quer dizer que não estejam informados sobre a disputa eleitoral que amanhã se decide no seu estado: afinal, a campanha ocupa diariamente metade dos jornais, a sua única fonte de informação.Mas os amish, que não se registam como beneficiários da Segurança Social nem aceitam qualquer subsídio ou forma de assistência do Governo, não são a audiência mais sensível aos temas repetidos pelos democratas na Pensilvânia: a perda de empregos por causa da globalização, a crise do mercado imobiliário ou a subida do preço do petróleo, a necessidade de garantir seguros de saúde para toda a população ou facilitar os empréstimos para estudantes universitários... "Não, a campanha eleitoral não passa por aqui", constatam".