POLITICA, COMUNICAÇÃO & ELEIÇÕES

terça-feira, 29 de Abril de 2008

Lembrando Sá Carneiro

(...)"Ainda mal se arrumara a casa e já se estava a partir para outra: as eleições presidenciais. Lá chegaremos, em breve, e ao dramatismo que as antecedeu. A pausa que fazemos é para introduzir dois excertos de uma entrevista de Proença de Carvalho a Maria João Avillez 27 que poderão ajudar a compreender os seus pontos de vista. O primeiro é sobre o critério que defendia para uma política de Informação televisiva. À pergunta da jornalista, Proença concedeu: “Terei de lhe responder em síntese. E assim direi que deve visar uma Informação rigorosa, isenta, pluralista, independente de todos os poderes, acessível ao grande público, interessante ao nível do espectáculo, propiciadora dos valores nacionais, da democracia pluralista e da pessoa humana.” O segundo diz respeito à já então próxima eleição do Presidente da República. Maria João Avillez, depois de ter ouvido de Proença de Carvalho que no anterior acto eleitoral a exclusão do PCP dos “face a face” que a RTP realizou tinha resultado de “uma sóbria análise que o Executivo só poderia alternar entre a AD e a FRS”, provocou-o com a pergunta: “Foi esse também o raciocínio que usou em relação aos candidatos à Presidência da República? Simplesmente aqui, parece que correu pior... Estou-me a lembrar de Pires Veloso...28 ”Resposta de Proença: “Sim. Durante a campanha eleitoral, a RTP cumprirá escrupulosamente a lei, concedendo a todos os candidatos uma rigorosa igualdade de oportunidades. Antes dessa fase e sendo à RTP que compete decidir sobre a sua programação, tendo em conta os objectivos da sua existência, deve fazê-lo de modo a procurar esclarecer o melhor possível os portugueses sobre as várias hipóteses possíveis e viáveis. E nessa medida considera errado escamotear a realidade que é a do peso relativo dos diversos candidatos em função das forças politicamente organizadas que os apoiam, da própria representatividade pessoal na vida pública nacional, etc.”
Sobre as vésperas do acto eleitoral reapareceu a Informação/2, assim falhando as previsões dos que a davam como morta. Carlos Pinto Coelho, Amaral Marques e Miguel Sousa Tavares assumiram as responsabilidades da edição. Eram, curiosamente, os mesmos que as detinham quando Proença de Carvalho chegou à RTP e se propôs reestruturar os blocos noticiosos do 2º Canal, para o que contou com as diligências de Duarte Figueiredo, a suspensão da actividade por um mês e a colocação noutras funções de alguns dos seus jornalistas.29 Parecia conseguida uma certa estabilidade para os desempenhos profissionais que se avizinhavam, exigidos por um País confiante na abertura informativa que a RTP iria dedicar à eleição do Presidente da República, a 7 de Dezembro. Mas o desastre aéreo que, 3 dias antes, vitimou Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, quando o avião em que viajavam para o Porto ainda mal descolara da Portela, eram 20 h. 17 m. 02 s., veio exigir um esforço suplementar aos jornalistas da RTP que, pouco depois, estavam no local, registando imagens que, guardando embora o valor histórico que evidentemente as exornam,sempre se mostraram insuficientes para o cabal esclarecimento da catástrofe, de que não houve, como se sabe, sobreviventes. Mas não se pense que foi empresa fácil a recolha dessas imagens. Não foi, porque as autoridades presentes em Camarate, no local do acidente, dificultaram quanto lhes foi possível, inexplicavelmente, o trabalho dos jornalistas, podendo mesmo alguns deles queixar-se de danos provocados nos equipamentos de registo de imagens e sons.
Ao Ministro da Administração Interna, Eurico de Melo, coube confirmar, oficialmente o acidente. Logo depois a RTP interrompia o curso normal da emissão e, pela voz, naturalmente emocionada, de Raul Durão, informava: “Francisco Sá Carneiro, Primeiro-Ministro de Portugal, faleceu há pouco mais de uma hora, num desastre de aviação. Na avioneta em que viajava Sá Carneiro seguia também sua mulher Snu Abecassis; Adelino Amaro da Costa, ministro da Defesa, e mulher; António Patrício Gouveia, chefe de gabinete do Primeiro-Ministro; e os dois pilotos.”
Foi uma noite vivida com emoção em todo o País, sendo que os estúdios do Lumiar foram um dos centros nervosos para onde convergiram, desde logo, não apenas dirigentes da RTP, ao mais alto nível, mas também algumas dezenas de funcionários que, mesmo não estando de serviço, se disponibilizaram para eventuais tarefas que, com efeito, viriam a ser programadas e entre as quais são de referir, por imediatas, as coordenadas pelas Relações Internacionais e que levaram à rede da Eurovisão as primeiras imagens da tragédia. Pela noite dentro a emissão foi cortada por intervenções do Presidente da República, Ramalho Eanes, e do Vice-Primeiro-Ministro, Freitas do Amaral, que dirigiram aos portugueses mensagens sinalizadas pela consternação e também pelo desejo de honrar a memória dos desaparecidos como, por certo, eles mais desejariam – pela consolidação de grandes objectivos da vida nacional e da instituição democrática.
Proença de Carvalho começou, nessa mesma noite, a dinamizar um pequeno grupo de trabalho (de que, entre outros, fizeram parte, o realizador Luís Andrade e o assessor Nuno Cintra Torres, 30 com vista à cobertura das cerimónias fúnebres que se iriam realizar nas próximas horas. Foram mobilizados todos os meios técnicos (alguns deslocados do Porto) e planificou-se o trabalho de modo a que a reportagem de rua fosse total, com câmaras e comentadores postados nos locais mais emblemáticos da cidade, também eles propiciadores de melhor moldura humana. Sábado, 6 de Dezembro, teve uma tarde de luto, levada de Lisboa para todo o País pela transmissão contínua da RTP, lamentavelmente ferida por circunstâncias várias de aproveitamento político, por vezes despudorado, e que, ainda hoje, tantos anos passados, permanecem ligadas a um acontecimento que mais não devia ter sido do que pungente para todos os portugueses. 31
Eanes venceu as eleições realizadas no dia seguinte, não havendo pois necessidade de uma segunda volta. A RTP, saída de enorme esforço de produção de reportagem, recarregou energias, concentrou novas atenções e deu à cobertura do acto eleitoral o número de horas de emissão que se justificava – elevado, naturalmente, como vinha sendo hábito em actos idênticos. Noite e madrugada, emissões diferentes em cada canal, mas um propósito único de levar ao espectador um produto informativo de qualidade. Na RTP-1, José Eduardo Moniz foi o responsável pelo noticiário eleitoral (com Fernando Balsinha e Adriano Cerqueira também nas apresentações) e não faltaram, uma vez mais, intermédios musicais (portugueses) para cobrir os chamados pontos-mortos. Houve as habituais intervenções do estúdio do Lumiar (central de comando) e fixaram-se equipas na Gulbenkian e nas sedes das candidaturas dos generais Ramalho Eanes e Soares Carneiro, enquanto que os outros candidatos foram assistidos por equipas móveis. Na RTP-2 a responsabilidade da emissão esteve com Carlos Pinto Coelho, auxiliado por Amaral Marques. Deu-se entrada frequente à RTP-Porto e a presença da equipa de Serras Gago foi determinante, até porque reincidiu nas boas previsões. Para aligeirar, música estrangeira, da melhor, como em Outubro
. (fonte: RTP)

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27 Expresso, 15.11.1980.
28 Margarida Marante e Pedro Oliveira já tinham a emissão “no ar” e Pires Veloso no estúdio quando este se recusou a ser entrevistado. O que fez foi ler um comunicado dando conta das suas razões face ao tratamento, que considerou discriminatório, que a RTP estava a dar aos vários
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Também o candidato Ramalho Eanes teve uma intervenção na RTP para se manifestar contra os critérios da estação que, entendia, discriminavam direitos ao tempo de antena dos demais candidatos.
29 António Mega Ferreira, que trabalhava na RTP com o estatuto de “requisitado” à agência noticiosa ANOP, viu-se na contingência de aí regressar, após a RTP ter “revisto” a sua situação profissional. Terá tido alguma importância nessa decisão o facto de ter participado num tempo de antena da recandidatura de
Ver maisEanes? Certo é que nada lhe valeu ter sido uma figura carismática do melhor período da Informação/2 nem de o considerarem a revelação televisiva de 1978. Voltar a fechar
30 No seu livro Televisão Política (edição Círculo de Leitores, Lisboa 1996), Nuno Cintra Torres escreve: “No Verão de 1995, Mário Mesquita entrevistou-me para um livro em preparação sobre a cobertura televisiva da cerimónia fúnebre de Sá Carneiro, que constitui a sua tese de doutoramento pela Universidade de Lovaina. Contei-lhe Ver maisas peripécias por que passei para, conforme pretendia Proença de Carvalho, ajudar a organizar e depois manter no ar a emissão de Televisão sobre o cortejo fúnebre e enterro de Sá Carneiro, o tempo que fosse necessário, contra a vontade dos comunistas, que naquela época ainda infestavam a RTP. Estava-se em véspera de eleições presidenciais – Ramalho Eanes v. Soares Carneiro – e a decisão de Proença de Carvalho, que eu transmiti à régie de emissão e que fiz cumprir, de que a emissão só acabaria quando acabasse o enterro, suscitou a maior controvérsia e oposição. O Partido Comunista, que apoiava Ramalho Eanes em conjunto com uma ala do Partido Socialista, de que fazia parte Mário Mesquita e tinha a oposição de Mário Soares, tentou por todos os meios impedir a emissão. Sabíamos intimamente que a eleição estava perdida para o candidato de Sá Carneiro e que a emissão, com toda a probabilidade, não iria mudar o sentido de voto de ninguém. Mas quisemos prestar aquela homenagem a Sá Carneiro e aos seus acompanhantes. Foram 7 horas que ficaram célebres e que valem um livro.” Voltar a fechar
Anos mais tarde (2000), ao leccionar a primeira aula da licenciatura em Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade do Porto, Mário Mesquita (citado no Diário de Notícias, edição de 14.11.2000, por Elsa Costa e Silva) lembrava que “na longa espera em que se transformou a cerimónia, a RTP1 optou Ver maispor uma gestão de transmissão em rede, com a palavra a passar pelos vários locais, sem que aí houvesse qualquer manifestação do cortejo – apenas pessoas à espera. ‘Foi o triunfo do não-acontecimento’.” Mesquita, que revelava parte da jarra ferida tese de doutoramento, considerou, ainda, que enquanto espectáculo televisivo, o funeral de Sá Carneiro, foi a “consagração do primeiro herói de centro e direita na era pós-25 de Abril”. Voltar a fechar
31 Proença de Carvalho, alvo de inúmeras contestações, dentro e fora da empresa (é ler a imprensa da época que, na generalidade, espelha essa situação), reconsiderou um pedido de demissão apresentado ao Primeiro-Ministro, então em exercício, Freitas do Amaral, e que surgiu na sequência do desaparecimento de quem lhe dera aval Ver mais